
" É como se a gente fosse um a cada instante e que esse um ficasse largado no tempo, à medida em que o tempo passasse.
Enquanto vivo, vou largando rastros de mim por instantes.
O tempo não me deixa voltar ou reaver aquilo que eu fui, mesmo que eu tenha sido apenas eu mesma, e ninguém mais que isso.
Será que o tempo só anda para frente? Será que em direção ao futuro, eu só posso andar de costas, olhando as pegadas que larguei para trás?
E se virássemos de frente, o passado continuaria sendo essa cauda que arrastamos pelo caminho, enquanto andamos cegos em direção ao futuro?
Mas não consigo enxergar a longa distância; só quando me aproximo o máximo possível do instante, quando piso nele, quando o instante é .
( ... )
Espero o melhor segundo para dar pause, e só então ando com cuidado entre eles. Às vezes a pausa é tão bonita que cruzo o tempo para vê-la.
Eles ficaram imóveis enquanto eu consertava o espaço. É sempre isso: o céu que se descola das nuvens que tombam no lago que escoa no chão...
E o narrador, ao consertar o espaço, puxar a linha do tempo e dar voz ao personagem, não percebeu que eram só uma bolinha de papel amassado.
Dentro da bolinha de papel amassado, jogada no cesto, dois personagens corriam campos inteiros, corriam os prados e planícies de mãos dadas.
Jogados naquele cesto de lixo, os dois personagens não tinham medo: insetos e baratas comem restos de alimento, e não de esperança.
( ... )
Não é difícil congelar a cena, é quando as folhas não pousam no chão, e os braços ficam suspensos no ar, num abraço que ela não terminou. "
- Rita Apoena -

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