sexta-feira, 11 de setembro de 2009

Fragmento de texto do Livro do Desassossego


A vida que se vive é um desentendimento fluido, uma média alegre entre a grandeza que não há e a felicidade que não pode haver. Somos contentes porque até ao pensar e ao sentir, somos capazes de não acreditar na existência da alma. No baile de máscaras que vivemos, basta-nos o agrado do traje, que no baile é tudo. Somos servos das luzes e das cores, vamos na dança como na verdade, nem há para nós – salvo se, desertos, não dançamos – conhecimento do grande frio do alto da noite externa, do corpo mortal por baixo dos trapos que lhe sobrevivem, de tudo quanto, a sós, julgamos que é essencialmente nós, mas afinal não é senão a paródia íntima da verdade do que nos supomos.

Se alguma coisa há que esta vida tem para nós, e, salvo a mesma vida, tenhamos que agradecer aos Deuses, é o dom de nos desconhecermos: de nos desconhercermos a nós mesmos e de nos desconhecermos uns aos outros. A alma humana é um abismo obscuro e viscoso, um poço que se não usa na superfície do mundo. Ninguém se amaria a si mesmo se deveras se conhecesse, e assim, não havendo a vaidade, que é o sangue da vida espiritual, morreríamos na alma de anemia. Ninguém conhece outro, e ainda bem que o não conhece, e, se o conhecesse, conheceria nele, ainda que mãe, mulher ou filho, o íntimo, metafísico inimigo.

Entendemo-nos porque nos ignoramos. Que seria de tantos cônjuges felizes se pudessem ver um na alma do outro, se pudessem compreender-se, como dizem os românticos, que não sabem o perigo – se bem que o perigo fútil – do que dizem. Todos os casados do mundo são mal casados, porque cada um guarda consigo, nos secretos onde a alma é do Diabo, a imagem subtil do homem desejado que não é aquele, a figura volúvel da mulher sublime, que aquela não realizou. Os mais felizes ignoram em si mesmos estas suas disposições frustradas; os menos felizes não as ignoram, mas não as conhecem, e só um ou outro arranco fruste, uma ou outra aspereza no trato, evoca, na superfície casual dos gestos e das palavras, o Demônio oculto, a Eva antiga, o Cavaleiro e a Sílfide

Tudo quanto fazemos ou dizemos, tudo quanto pensamos ou sentimos, traz a mesma máscara e o mesmo dominó. Por mais que dispamos o que vestimos, nunca chegamos à nudez, pois a nudez é um fenômeno da alma e não de tirar fato. Assim, vestidos de corpo e alma, com os nossos múltiplos trajes tão pegados a nós como as penas das aves, vivemos felizes ou infelizes, ou nem até sabendo o que somos, o breve espaço que nos dão os deuses para os divertirmos, com crianças que brincam a jogos sérios.

Um ou outro de nós, liberto ou maldito, vê de repente – mas até esse raras vezes vê – que tudo quanto somos é o que não somos, que nos enganamos no que está certo e não temos razão no que concluímos justo. E esse, que, num breve momento, vê o universo despido, cria uma filosofia, ou sonha uma religião; e a filosofia espalha-se e a religião propaga-se, e os que crêem na filosofia passam a usá-la como veste que não vêem, e os que crêem na religião passam a pô-la como máscara de que se esquecem.

E sempre, desconhecendo-nos a nós e aos outros, e por isso entendendo-nos alegremente, passamos nas volutas da dança ou nas conversas do descanso, humanos, fúteis, a sério, ao som da grande orquestra dos astros, sob os olhares desdenhosos e alheios dos organizadores do espetáculo.

Só eles sabem que nós somos presas da ilusão que nos criaram. Mas qual é a razão dessa ilusão, e por que é que há essa, ou qualquer, ilusão, ou por que é que eles, ilusos também, nos deram que tivéssemos a ilusão que nos deram – isso, por certo, eles também não sabem.


Livro do Desassossego – Bernardo Soares, (semi-heterônimo) ajudante de guarda-livros na cidade de Lisboa
Companhia das Letras – organização: Richarde Zenith

2 comentários:

K- disse...

Gostei do texto.
Mas acho que se deve conhecer ao menos o mínimo das pessoas para não se decepcionar mais tarde. Ou, simplesmente não conhecer, mas sem achar que conhece. Apenas se entregar ao que o outro tem a ofertar sem lhe por expectativas. A projeção que fazemos das pessoas é o que destrói o que sentimos por elas.

Beijos, flor

A.Carpe Diem disse...

Na verdade flor, eu acho que só conhecemos o que a pessoa quer nos mostrar. Dificil conhecer alguém por inteiro, nem nós mesmos nos conhecemos 100 %. No meio do baile de máscaras, as vezes damos sorte de achar alguém que use a mesma ' fantasia ' que a gente.Então se torna desnecessario o uso dela, pq elas se entendem perfeitamente.

A grande premissa é que, TODO mundo, um dia vai te decepcionar, pq somos imperfeitos,e quanto mais existe proximidade, mais irá doer. Resta saber, quantas pessoas sobrevivem às decepções. Ou são capazes de perdoar.