quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

Le Savon

Uma espécie de pedra, mas que não se deixa rolar pela natureza: ela prefere escorrer entre os dedos e fundir a olhos vistos, que se deixar rolar pelas águas.
O jogo consiste justamente então em mantê-la entre os dedos e aí provocá-la com a dose de água conveniente, a fim de obter dela uma reação voluminosa e nacarada…
Deixando-a permanecer na água, ao contrário, ela morre de confusão.

Sua testa seca sob o sol, bronzeia-se novamente, se endurece, se enruga, se racha.
As preocupações fazem-lhe fendas. Mas jamais ele se conserva melhor que inativo, assim, esquecido.
Na água, ao contrário, onde amolece, circula, parece estar à vontade - nela dificilmente o agarramos de novo - onde se desloca, torna-se ágil, depois volúvel, eloqüente, - ele se gasta então em um ritmo inquietante,
nela ele não permanece impunemente… Será isso o que se chama levar uma vida dissoluta?
Vejo aí também o signo de uma dignidade particular…

Não há nada na natureza de comparável ao sabão. Nenhuma pedra é tão modesta, nem, ao mesmo tempo, tão magnífica.
Para dizer a verdade, há algo de adorável na sua personalidade.
Seu comportamento é inimitável.
Para começar, essa reserva perfeita.
O sabão demonstra a princípio uma contenção perfeita, posto que mais ou menos discretamente
perfumada. Depois, logo que alguém se ocupa dele, então não direi que fogo, isso é claro, mas que impulso magnífico! Que entusiasmo extremo no dom de si!
Que generosidade! Que volubilidade, quase inesgotável, inimaginável!
Pode-se, aliás, livrar-se dele logo, mas essa aventura, esse breve encontro deixa -eis o que é sublime - você fica com as mãos mais limpas do que jamais as teve.

- Fragmentos do livro Le Savon de Francis Ponge

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